Seios nus
Luis Fernando Verissimo
Nostalgia. Quando o filme era “proibido até 18 anos”, era sinal de que no filme - invariavelmente francês ou italiano - aparecia um seio nu, talvez até dois. Menores de 18 anos não podiam ver um seio nu na tela, sob pena de se acostumarem e saírem a reivindicar seios nus na vida real. Entre os 13 anos, quando tive minha primeira experiência sexual digna desse nome - com começo, meio, fim e, acima de tudo, parceira —, e os 18, vi 23 seios nus, contabilizados aí 10 pares completos e três avulsos vistos fortuitamente (decote descuidado, etc.) que registrei como brindes. Seios reais, vivos e palpitantes, não impressos, pintados, esculpidos, projetados numa tela ou sonhados. Desses 23 devo ter tocado nuns 14 (preciso consultar minhas anotações). Mas não adiantaria usar esta argumentação com o porteiro do cinema. Sustentar que os seios da Martinne Carol não teriam nada de novo para me dizer, pois não podiam ser tão diferentes assim dos da Ivani, não colaria. Com menos de 18 anos não entrava e pronto. Pela lei, eu não tinha idade para ver seios. Se tivesse visto algum por minha conta, não era responsabilidade do porteiro.
Os porteiros de cinema daquela época foram os últimos exemplos de intransigência moral da nossa história.
A luz de Edward Hopper
A luz que banha os quadros do pintor americano Edward Hopper é a luz mais triste do mundo. Alguém poderia escrever um tratado sobre as diferenças entre sociedades a partir da maneira como seus pintores pintavam a luz, tentar explicar por que poucas coisas continuam sendo tão estranhamente americanas e evocativas como o sol nas paisagens urbanas de Hopper e contrastá-la com o sol de Monet ou Renoir, ou até o sol de Van Gogh, que era o sol da loucura, mas não era tão desesperado.
Alguém, mas não eu.
Preconceito
Não como rã. É um preconceito como qualquer outro. Inclusive de cor: nenhum animal verde me merece confiança – ainda mais no prato. Mas nossa repugnância seletiva com algumas comidas não tem explicação racional. Não há nenhuma diferença formal entre, por exemplo, a enguia e a cobra, que em certos países é uma iguaria. Como enguia, mas não posso imaginar uma situação tão extrema que me obrigasse a comer cobra.
- Prove, foi carneada agora.
- Muito obrigado.
- Tem textura de...
- Por favor, sem detalhes.
- Olha que não há mais nada para comer.
- Esta sola de sapato, para mim, está ótima.
Há quem como gafanhotos caramelados. Formigas fritas com tempero verde e... Está bem, sem detalhes. Tudo depende da nossa formação cultural, dos nojos que aprendemos. Por que comemos leitõezinhos e ovelhinhas sem hesitação ou piedade e nos horrorizamos com a ideia de comer um cachorrinho? Ou um bom gato?
Dizem que a maior e mais antiga fome da humanidade é por carne humana mesmo e que vem daí todos os nossos pruridos à mesa. Só estamos tentando disfarçar nossa vontade de devorar o próximo. Todas as nossas regras de culinária e comportamento seriam para esconder esta preferência comum. Bom, mas bom mesmo, é gente.
- Perna ou peito?
- Um antebraço, por favor. Tem menos gordura.
- Olha, gente, esse fêmur ainda tem carne.
- Pô, este peito era de halterofilista!
E, que eu saiba, não existe pessoa verde.
Domingo, 19 de novembro de 2006.
Desenvolvido por Carlos Daniel de Lima Soares.